Decidi sair da casa que moro. Isso, para uma república, no meio de uma pandemia, com umas perspectiva de que minha saída pode causar a volta de outras duas pessoas para suas próprias casas, é triste, dificultoso, me dói. Pensei muitas vezes antes de tomar essa atitude, se seria moral ou imoral, se seria incoerente. O grande ponto da coerência é justamente entender que o que é coerente ontem, já não é hoje. É entender que você deve adaptar-se ao que você acredita no momento, com certeza e com sua própria verdade, e depois aceitar os sentimentos que aquilo causará. A coerência não deve estar acima do que é a busca pela felicidade, pelas virtudes. Acho que hoje tornei-me realmente uma estoica:
"Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa - em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem".
"Se alguém lhe disser que uma certa pessoa fala mal de você, não se justifique sobre o que é dito sobre, mas responda: 'Ele ignora minhas outras falhas, senão não teria mencionado só essas'".[4]
Isso é Epíteto, e isso também sou eu, o que eu estava buscando. Flertei com isso por muito tempo e doeu, demorou, mas acho que está sendo.
"Os homens são movidos e perturbados não pelas coisas, mas pelas opiniões que eles têm delas."
Não que serei uma estoica de carteirinha. Não que isso é o único propósito da minha vida. Mas ele me libertou e talvez liberte a outras pessoas. Sei que deixei aquele lugar de peito aberto, mas ao mesmo tempo sempre caio na mesma dúvida: fiz o que pude? Me abri o suficiente? Dialoguei?
E quando isso não dá mais. E quando o diálogo não é frutífero, cansa, corrói, não faz sentido? E quando você não está pronta para mais conflito? É covardia? Falar "fiz o que pude" com a certeza que você fez muito mais do que você conseguiria, do que sua felicidade e bem estar permitiria, mas também porque você se pôs numa posição de sacrifício que ninguém te pediu. E você quer sair disso, e se desamarrar disso, mas você não tem como avisar, porque sua força está toda voltada para essa transformação. A ruptura é essa transformação, e nunca um arrependimento. É sempre um novo que chega. Doloroso, mas chega.
Lendo o que disse em outras postagens, todas essas reflexões e obscuridades, agora estão claras. Eu estava crescendo desforme, mudando estranhamente e é como se eu explodisse. Ainda não consegui regular essa válvula de escolhas sem ter que ser por meio do limite e da exaustão. Preciso entender isso, para diminuir minha dor e o que posso direcionar ao outro.
Entender que o seu sofrimento, é seu. Que a sua felicidade, é sua. Entender que a injustiça, é sua, e trabalhar com ela, mover com ela, significar ela por luta. É isso que eu, hoje, entendo.
Não é um namorado que te ama que te faz feliz; não é um rompimento que te desgraça; não é uma injustiça que te debilita, mas a própria aceitação de que está injustiçado e o que fazer com isso, é que te move.
Esse discurso tem que ser visto com MUITO cuidado. Ele pode mover para o individualismo e o egoísmo. Como saber o meio termo entre social e individual? Sobre o sacrifício e a caridade? Sobre o perdão e sobre a injustiça?
Eu saio de casa com incertezas. Da outra vez, saí com incertezas e pedi por fortaleza, lar, cuidado, intimidade. Isso sufocou, agonizou, deteriorou. Isso virou, novamente, a primeira vez que saí. Balançada entre a segurança e a insegurança, a certeza de um eterno não pertencimento. Apenas vagando, buscando a felicidade. E ninguém disse que a busca por ela, o caminho até ela, não machuca. Os sábios já diziam.
Estou no mundo com zero incertezas, só com a vontade de ser livre e feliz e a ajudar, sem que isso seja uma obrigação, somente porque quero. Sem que seja sacrifício, somente por caridade. Sem que isso seja martírio, só por amor. E entender que o amor às vezes acaba, que os sentimentos são para aceitar, ir e deixar chegar novos. Que preciso ter coragem, por mais que me machuque e machuque aos outros. Que preciso buscar conhecimento, compartilhá-lo, direcionar meu dinheiro pra coisas que realmente importam. Não ter vícios.
Por fim, entender que nada é eterno, tudo perece, tudo morre. Aceitar a morte é aceitar a vida. É o ciclo.